Guia prático: como estruturar TR, ETP e Matriz de Riscos no Acre segundo a Lei 14.133
Este guia integra TR ETP e Matriz de Riscos Lei 14.133 com foco no contexto logístico e climático do Acre
A fase preparatória é o alicerce de qualquer contratação pública bem-sucedida. Na prática, isso significa integrar três peças que se conversam: Estudos Técnicos Preliminares (ETP), Termo de Referência (TR) e Matriz de Riscos. No Acre, onde sazonalidade de chuvas, logística híbrida (rodoviária/fluvial/aérea) e distâncias impactam a execução, essa integração precisa ser ainda mais cuidadosa.
A seguir, um passo a passo enxuto para estruturar cada documento e garantir coerência entre eles, com observações pontuais para a realidade do Acre — sem perder de vista os requisitos da Lei nº 14.133/2021.
1) ETP: a decisão de contratar, com pés no chão
Para que serve: demonstrar a necessidade, avaliar alternativas e justificar a solução de referência, com dimensionamento, custos e primeiros riscos mapeados.
O que não pode faltar:
- Objetivo e problema/oportunidade: descreva o “porquê” da contratação e o “para quê” do resultado esperado.
- Alternativas avaliadas: manter como está, fazer com recursos próprios, terceirizar, consórcio, solução compartilhada etc., registrando prós e contras.
- Solução de referência escolhida: justifique tecnicamente a opção (capacidade institucional, custo total, prazos, níveis de serviço).
- Dimensionamento da demanda: quantidades, frequências, áreas atendidas ou perfis de usuário; use séries históricas quando existirem.
- Pesquisa de preços e memória de cálculo: combine métodos (painéis públicos, contratações similares, cotações) e explicite premissas.
- Indicadores de desempenho de referência: o mínimo que permitirá medir se o serviço/fornecimento faz sentido.
- Riscos preliminares: antecipe fatores que irão para a Matriz (clima, acesso, variação de demanda, mão de obra).
- Viabilidade logística no Acre: preveja janelas de execução compatíveis com chuvas/cheias, acesso a comunidades e estoques locais.
- Compatibilização orçamentária: vínculo com PPA/LDO/LOA e estimativa aderente.
Erros comuns:
- pular alternativas e “começar pelo preço”;
- estimativas sem evidências;
- ignorar sazonalidade local e impacto em prazos/custos.
2) TR: do “o que” ao “como medir” (sem engessar o mercado)
Para que serve: traduzir o ETP em especificações funcionais, níveis de serviço e regras de execução/medição/pagamento, com responsabilidades claras.
Elementos essenciais:
- Objeto claro e mensurável: descreva resultado, não marca. Evite requisitos que fechem o mercado.
- Escopo e limites: o que entra e o que não entra; áreas, horários, volumes.
- Especificações técnicas + desempenho: preferir requisitos de performance (ex.: tempo de atendimento, índice de conformidade).
- Medição, aceitação e pagamento: como medir, quando aceitar, quando e como pagar; critérios de glosa.
- SLA/SLO e indicadores: prazos, disponibilidade, qualidade, segurança.
- Fiscalização e governança: papéis do gestor e dos fiscais, periodicidade de vistorias, canais de comunicação.
- Gestão de mudanças: como tratar alterações de rota, de volumes e de solução tecnológica.
- Segurança do trabalho, ambiental e LGPD (se houver dados pessoais): requisitos objetivos.
- Garantias/seguros (se cabível): proporção com o risco.
- Integração com a Matriz de Riscos: quem arca com o quê, gatilhos de revisão, mecanismos de reequilíbrio.
Cuidados práticos no Acre:
- prever planos de acesso alternativo e reprogramações quando eventos climáticos forem gatilhos objetivos;
- calibrar estoques mínimos locais e prazos de mobilização realistas;
- alinhar a cadeia de suprimentos (combustíveis, peças, insumos) ao cronograma.
3) Matriz de Riscos: alocação inteligente e gatilhos claros
Para que serve: distribuir riscos conforme quem tem melhor capacidade de gerenciá-los, definindo gatilhos e efeitos (reprogramação, glosas, reequilíbrio).
Como montar na prática:
- Liste categorias: clima/logística, demanda, insumos, mão de obra, licenças/autorizações, tecnologia, compliance.
- Descreva eventos de risco (concretos e verificáveis).
- Estime probabilidade e impacto (baixa/média/alta) com base em históricos e evidências locais.
- Aloque a responsabilidade: contratante, contratada ou compartilhada.
- Defina gatilhos objetivos: níveis de rio, prazos máximos de acesso, variação percentual de demanda, índices setoriais.
- Preveja mitigação, contingência e efeito contratual: reprogramação de marcos, rotas alternativas, reajuste/repactuação, glosas, suspensão.
Exemplos típicos no Acre:
- Sazonalidade de chuvas/cheias (impacto alto em acesso e prazos) → risco compartilhado com janelas de execução; reprogramação como primeira resposta.
- Variação de volume demandado acima da faixa prevista → risco da contratante, com faixas de variação e gatilhos definidos no TR.
- Oscilação anormal de insumos críticos → risco da contratada mitigado por reajuste/repactuação conforme índices e cláusulas.
Integração de TR ETP e Matriz de Riscos Lei 14.133: coerência de premissas, gatilhos e medição
4) Amarrando tudo: coerência ETP → TR → Matriz
- Premissas iguais nos três documentos (demanda, logística, prazos).
- Indicadores do TR derivados dos resultados do ETP.
- Riscos do ETP viram linhas da Matriz; o TR referência os gatilhos.
- Orçamento do ETP sustentando pagamentos e glosas do TR.
- Governança: gestor e fiscais com agenda e rotinas compatíveis com o risco (mais chuva = mais fiscalização nos marcos críticos).
5) Passo a passo rápido (operacional)
- Rascunhe o ETP em 1–2 dias úteis: objetivo, alternativas, solução, demanda, riscos e custo-base (com fontes).
- Converta para TR: escreva o objeto por resultados; anexe medições, SLAs e critérios de pagamento; inclua plano de fiscalização.
- Monte a Matriz de Riscos: aloque responsabilidades e crie gatilhos verificáveis; vincule aos efeitos contratuais.
- Faça o “teste Acre”: valide janelas de execução frente às chuvas/cheias e logística; ajuste cronograma/estoques.
- Check de governança e PNCP: parecer jurídico, orçamento, identificação no PNCP, designação de gestor/fiscais.
- Revisão cruzada: cada premissa deve aparecer coerente nos três documentos.
6) Checklist profissional para baixar (ETP, TR, Matriz e PNCP)
Para facilitar, preparamos um checklist editável em Excel com:
- ETP: 18 itens essenciais com campos de evidência e responsável;
- TR: 20 itens com foco em desempenho, medição, fiscalização e integração com a Matriz;
- Matriz de Riscos: modelo com exemplos (clima, demanda, insumos, mão de obra, licenças) + linhas em branco;
- Governança/PNCP: publicações, designações e trilha de auditoria.
7) Modelos de texto (copiar e adaptar)
Cláusula de Integração com a Matriz de Riscos (exemplo):
“A alocação de riscos definida na Matriz anexa é parte integrante deste Termo de Referência. Verificado o gatilho objetivo previsto, aplicar-se-ão os efeitos contratuais nele especificados, inclusive reprogramação de marcos e mecanismos de reajuste/repactuação quando cabível.”
Critério de Medição (exemplo para serviços continuados):
“Serão considerados conformes os serviços com índice de aderência ≥ 95% ao plano de inspeção mensal. Não conformidades geram glosa proporcional segundo Tabela de Glosas do Anexo X.”
Gatilho de Reprogramação por Clima (exemplo):
“Nível do rio/índice pluviométrico superior ao parâmetro Y por Z dias consecutivos suspende o prazo daquele marco e aciona reprogramação automática.”
Conclusão (último parágrafo): Com TR ETP e Matriz de Riscos Lei 14.133 bem alinhados ao cenário do Acre, a contratação ganha previsibilidade e fiscalização efetiva.
8) Encerrando: menos papel, mais previsibilidade
ETP sem evidência fragiliza o preço; TR sem foco em desempenho engessa a execução; Matriz sem gatilhos só existe no papel. Quando as três peças se encaixam — considerando as particularidades do Acre — a Administração contrata com previsibilidade e o contratado entrega com clareza de “como” será medido.
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4 respostas a “TR ETP e Matriz de Riscos Lei 14.133 – Guia Prático”